Maria ensinava o filhinho a descascar batatas. Aquela cena típica. Sentava em uma cadeira de madeira, sem braços, com um avental florido sobre o colo e uma bacia cheia de tubérculos recém-lavados no chão, entre as pernas. À sua esquerda, uma pilha de cascas e, do lado direito, o menino, Amadeu, à beira do fogão, que recebia o vegetal nu e colocava para boiar na panela de pressão. A mãe salientava muito o perigo trazido pela lamina da faca, que poderia machucar seus dedinhos, para que apenas tentasse fazer sob o olhar de adultos. “Cuidado para não perder muita batata, corte bem fininho, mas não tão fino a ponto de quebrar a tira, olhe, bem rente, bem a par com a carninha amarela”, descrevia com carinho. E fazia os gestos e produzia espirais e espirais intermináveis daquele filete marrom. O menino prestava a maior atenção do mundo, como se sua mãe estivesse partilhando um dos grandes segredos da humanidade. E, longe de ser coisa boba de criança, na verdade, ela estava mesmo.
Terça-feira, Dezembro 28, 2010
Quarta-feira, Dezembro 22, 2010
18 O segundo copo
Quando as sensações adentravam uma penumbra densa da alma. Quando Benni se sentava em frente ao balcão do bar. Pedia um chope gelado e ficava observando as gotas escorrerem do lado de fora do copo. Assistia o suor brotar no vidro e escorrer, formando uma poça molhada no suporte de papel. Ele discursava para si mesmo que aquela seria a última vez. Começava a enumerar todos os seus problemas de um a cem. E aquela seria a última vez que entraria naquele boteco sujo e que gastaria tudo o que tinha em sua carteira com cerveja, até ficar meio zonzo, voltar para a pensão e se jogar na cama mofada. Não, teria que tomar uma atitude! Já sabia exatamente tudo o que havia de errado consigo mesmo. Agora bastava mudar, esse era o grande segredo.
Queria descrever como estava se sentindo. Porém, estava naquele ponto em que as sensações adentram uma penumbra densa da alma. Com o indicador, coçou o nariz inchado por todo o pó e fungo que coabitavam o quartinho em que vivia. Levantou, sem cuidado, o copo até a altura dos lábios e bebeu, deixando escorrer dois filetes de cerveja nas laterais dos seus lábios. "Sou um monstro detestável", pensou e, enquanto terminava de enxugar aquela caneca, pediu mais uma ao garçom. Talvez fosse uma toalha, que precisava sorver aquela coisa amarela, aquela coisa sua paz, aquela coisa seu acalanto. Tinha certeza que, se lhe abrissem as veias, jorrariam litros de cerveja.
Um arrepio tremendo cruzou suas costas e o fez se chacoalhar inteiro. Tossiu alto, coçou o pescoço e engoliu um bolo de saliva. Quase um ritual de gestos que fazia enquanto esperava o balconista servir o segundo copo.
Num clarão, sentiu-se só, mas reconheceu a voz do narrador de futebol que emanava do volume moderado da tv do garçom e, de certa forma, teve a sensação de estar acompanhado.
A cerveja chegou. Nesse momento, é como se o sentimento anuviado, tivesse começado a boiar no mar alcoólico. Benni já poderia divisá-lo. Entre alegria e melancolia, escolheu abraçar-se imediata e irremediavelmente à primeira. Sorriu, carregando ansiosamente o recipiente até a boca. O terceiro desceria ainda mais suavemente.
Domingo, Dezembro 19, 2010
Sexta-feira, Dezembro 17, 2010
Quarta-feira, Dezembro 15, 2010
Segunda-feira, Dezembro 13, 2010
17 Ao longe ladra um coração na cega noite ambulante
Dalva despetalou. Uma a uma. Dalva despetalou.
Os olhares pra Dalva. Ela despetalando.
Quando uma pessoa perde as pétalas assim, em publico, é de causar sensações.
Um riu, dois chorou, três berrava incessante. O quarto estático, sem dar sinal de vida.
E ela lá.
Um pouco acanhada. Mas... Inteiriça. Inteiriça, mas, em partes. Despetalada.
* O título é um verso do poema “Ego de Mona Kateudo”, de Mário Faustino.
Os olhares pra Dalva. Ela despetalando.
Quando uma pessoa perde as pétalas assim, em publico, é de causar sensações.
Um riu, dois chorou, três berrava incessante. O quarto estático, sem dar sinal de vida.
E ela lá.
Um pouco acanhada. Mas... Inteiriça. Inteiriça, mas, em partes. Despetalada.
* O título é um verso do poema “Ego de Mona Kateudo”, de Mário Faustino.
Domingo, Dezembro 12, 2010
Domingo, Dezembro 05, 2010
16
Encontros 1
Veio em minha direção. Cheirava à leptospirose. Segurando as calças largas, doadas por algum obeso. Os pelos pubianos de fora. O ensaio de uma nudez suja e nauseabunda. Mas bela. Era jovem e tinha um rosto agradável. Colorido de excesso de sol e fuligem. Não estendeu as mãos como quem pede. Sequer me viu. Talvez, para ele, eu fosse apenas um item, como tantos outros, da paisagem urbana. Continuou indiferente, reto.Encontros 2
Lucas, acompanhado de uma francesa que está há três meses no Brasil. Falava um português embromado, porém perfeitamente entendível. Não tinha problemas, eplo menos superficiais, de comunicação. Os olhos sorriam brilhantes, acompanhados pela boca e bochechas donas de uma inocência bonita.
Ele continua com aquele sorriso - igual ao de sua irmã - que não se revela feliz ou sarcástico, mas que atrai e passa um tipo misterioso de conforto. Largou uma outra faculdade para ser músico. Toca baixo em grupos de samba. Disse que estou bem, com relação ao meu eu que conheceu no colegial. Estava levando ela para apresentá-la à praça Benedito Calixto.
Encontros 3
Eu não sei se ele está ou não com a Daniela. Mas como eu, foi assistir à representação dela em um experimento de direção teatral na faculdade de artes cênicas. Cumprimentei-o e fiz referência a uma entrevista que fiz com ele há meses e que ainda não foi publicada. Minha parceira de apuração ainda está para decupar a fita.
De repente, fiquei sem assunto. Começamos ambos a nos consumir em nossa timidez que, às vezes, sem querer, deixamos que tomem proporções gigantescas. Num ímpeto desesperado, recorri à minha bolsa. Pesquei uma caneta e meu caderno de rabiscos no meio da bagunça. Comecei a compor rostos cartunescos até o início do espetáculo.
Encontros 4
Eu corria os olhos pelas prateleiras de iogurte. Não conseguia decidir se ia mesmo levar um daqueles litros gelados para vencer a sede e a fome. Quando percebi, uma garota muito bela me examinava em minha indecisão. Meu susto quando reparei o olhar perscrutador, fez com que ela fugisse dissimuladamente para o outro lado. Peguei um com sabor morango, paguei, e saí bebendo no gargalo, um pouco constrangido de andar pela Paulista virando um litro de iogurte.
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