Segunda-feira, Maio 23, 2011


Em um parque de diversões, uma baleia arcou com a consequências. Orca, nadou até a costa, foi capturada para pular e receber aplausos. Agora mora em uma piscina. Ração de peixe dia, tarde e noite. Recompensas se fizer o truque certo. Simão cavouca a terra e observa de longe o mamífero marinho tentar vencer a gravidade. Sua visão é mediada por uma cerca que não tem o direito de atravessar.

O garoto e um graveto, perfurando o solo. Um menino quase símio, com os traços quadrados e gestos macaqueados. Pega uma semente de damasco que carregava no fundo do bolso e coloca no buraquinho que fez no chão, enterra. Mija em cima do montinho e sai correndo.

Três meses depois. Simão com o pé quebrado. Mesmo lugar. Muleta de tábua velha, pregada pelo avô.  Agachado, os olhos na altura do chão, ele olha o broto do damasqueiro crescendo. Fica lá por horas e horas. Atrás da cerca, a baleia mata um tratador. Para ela era só uma brincadeira carregá-lo até o fundo da piscina. Quando o menino levanta, com dificuldade (o pé dói), vê a piscina rubra, mas não reconhece o sangue contra o colorido pintado pelo por do sol. Vai pra casa.

Dez dias depois, a baleia é vendida para um peixeiro japonês. Vira cento e trinta e duas grandes porções de carne vendidas para restaurantes orientais do centro da cidade. O parque não abre. O parque não abre de novo. Na próxima semana, uma nova baleia é trazida de caminhão do litoral. No dia seguinte, o parque abre. Simão estava lá, observando o show de reinauguração. Bonito, com fogos.

O novo animal era maior ainda. No meio da empolgação - já não tinha mais a perna quebrada e saltava imitando o cetáceo - o menino pisou no damasqueiro. Só percebeu quando as luzes do parque tinham se apagado e as crianças, com suas roupas claras e limpas tinham ido embora. Quis chorar, voltar no tempo, concertar a planta. Tentou desamassar e terminou quebrando o galho verde. Seguiu desnorteado para casa.

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