Três beliches, com os seis lugares ocupados por adultos. O colchão de Simão fica no chão do quarto, no meio de todos eles. Dorme pesado, mas treme de vez em quando. Se o avô visse, deduziria que era um pesadelo. Na cabeça do menino, um cetáceo dá pulos inacreditáveis e gira dezenas de vezes no ar. O garoto está dentro do parque, com as outras crianças. Sorri e sente uma felicidade quente dentro de si.
De repente, lembra-se de olhar para trás. Vê um morro, e o ponto exato de onde tantas vezes assistiu aquele mesmo espetáculo, talvez nunca tão fantástico e inacreditável como desta vez. Percebe que há uma árvore a mais lá. É o damasqueiro! Seu coração dispara ao ver a árvore adulta. Ao lado dela, vê a si mesmo, com as duas pernas quebradas, assistindo de longe --com os olhos brilhantes de emoção-- o show da baleia. Fica muito impressionado com a cena, mas vira sua cabeça para frente, não quer perder a apresentação vista daquele lugar especial.
Quando retorna os olhos para a piscina, a baleia abre as asas e, em vez de voltar para a água, vem com um rasante na direção de Simão, pega ele pela manga da blusa e o joga em suas costas. Quando o garoto percebe, está voando pelo alto da cidade enquanto a multidão de crianças olha para ele. A baleia dá um novo rasante em direção ao damasqueiro, que se torna cada vez maior e mais frondoso. Os dois entram com tudo na copa da árvore , como se houvesse uma passagem para outro universo.
Simão acorda com uma tosse comprida de um dos avôs. Abre os olhos e distingue os prédios-camas recheados de adultos que fazem a paisagem do quarto. Tateia o chão frio e as paredes de tijolo até a torneira da pia. Bebe. Vai até o banheiro. A luz da lua ilumina o vaso. Erra, mija fora, mas deixa lá. Preguiçoso, volta a dormir.

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