Domingo, Julho 31, 2011

IX - Entrega

Com a mão no rosto, ela gritava que queria mais de mim do que eu podia dar.
Com a mão na face, berrava: "quero de você mais do que me dá".
Com palma e falanges abraçando a maçã do rosto, urrava o desejo de que eu me superasse e entregasse mais de mim do que havia entregue até então.
Com a face plantada no meio da mão, dizia alto que era seu desejo que eu desse a ela mais de mim do que havia dado até então.
Mão na cara. Boquiaberta, aos gritos. Seu querer mais urgente era que eu me superasse radicalmente em minha entrega a ela.
Com brusquidão, plantou a mão direita no lado equivalente da face. Me olhou entre os dedos, franziu a testa e abriu a boca. Começou a gritar. Me cobrava entrega. Mais do que eu tinha entregue até então.
Seu braço magro subiu como uma serpente até a altura do rosto. Abraçou uma das maçãs -da face-, como quem abraça um bebê recém nascido, sua autocompaixão logo se converteu em uma expressão de revolta. Assumiu uma voz altiva, dessas que atropelam o que estiver no caminho. Enquanto me olhava por um vão entre dois dedos, suas palavras se direcionavam a mim e era eu que ela queria, um eu que até então eu não havia entregue, um eu que superasse todo o eu que ela já tinha. Pediu, implorou, ordenou.

[Um texto de sete faces vagamente inspirado no conceito de tridução, desenvolvido por Décio Pignatari, que consiste em traduzir os versos do poema em três formas seguidas: literal/rima/subtexto. Da próxima vez tentarei fazer um texto com cem faces. Como um arriscado castelo de cartas, a história progride de uma retradução, do português para o português, das frases acima, adicionando (ou não) pequenos elementos à narração.]

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