Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

XIII - Clara Clara Clara

Átomo Silva percebeu duas portas. Bateu na primeira. Nada. Nada. Nada. Bateu na segunda. Atendeu uma mulher. Cinquenta anos. Cabelos grisalhos, roupa puída. Átomo perguntou por Clara. Quê? Ela não entendeu. Era meio surda. Por Clara! Desta vez ouviu. Disse que não sabia dela.

Átomo tirou um papel amassado do bolso. Mostrou. Era uma foto de Clara. Num sulfite meio rasgando. Impressa  em impressora velha. Das que só servem para imprimir currículos. A dona apertou os olhos. Faz tempo que não a vejo. Eu também. Faz tempo que não a vejo,  ele falou. Ela foi fechando a porta. Átomo agradeceu. Despediu-se.

Silêncios inéditos
Cada um de seus silêncios --Clara-- foi inédito para mim. Um deles me deu coceiras. O outro foi quase uma chibatada. O terceiro me veio como um carinho. Do quarto me senti cúmplice. O quinto me magoou. O sexto me fez rir.  Depois, quando veio um oceano de silêncios, nadei. Nadei. Nadei. Nadei. Nadei. Nadei. Nadei.

O corpo cansa, Clara. As energias se exaurem. A primeira lufada --do seu silêncio invadindo meus pulmões-- me fez tossir sem parar. Na segunda, já estava mais acostumado. De repente, me vi envolto. Já não sabia me distinguir no meio do seu universo de silêncio.

Ainda os teus silêncios
Os pensamentos de Átomo fluíam. E estacavam. O que é mais silêncio? Mensagens vazias ou nenhuma mensagem? Átomo se pegou desejando que Clara lhe enviasse pelo menos um e-mail. Sem assunto e sem conteúdo. Vazio de tudo, mas algo. Um silêncio menos silêncio do que a falta de resposta. Ou a falta de resposta era mais do que silêncio e uma carta vazia seria então o silêncio de fato?

Para ele, seria ao menos um sinal de que as páginas (e mais páginas) de confissões e perguntas que a enviava eram lidas. De que não falar com ele havia sido uma decisão deliberada. De que ele deveria se retirar. Se resignar. Tentar se desnovelar daquele emaranhado confuso de sentimentos e caminhar em qualquer outra direção. Se é que se lembrava como era caminhar.

Se é que se lembrava como era caminhar. Se é que se lembrava como era caminhar. Se é que se lembrava como era caminhar. Esta última frase permaneceu. Ficou nos pensamentos de Átomo por mais tempo do que o desejado.

Uma lista de neuroses
De quem?
De quem o quê, ô?
É a lista de neuroses?
Do Átomo Silva. De quem mais?

Item primeiro (e único): Deelesermaisvelhodeestaremlongedenãoconhecêladefatodeserimaginadocomoummalucodeelasermaisnovadeelanãoterinteresseemhomensrapazesnogêneromasculinodeelanãoterinteressenoamordeeleserumestorvodedeelanãoterinteressenenhumnememamizadedeelenãonemsernadanãonemexistirnomundoohmeusenhoreassimvaieassimvaitantacoisamaisaiqueitemenormeporfavorpareparepare.

Encerramento
Eu me lembro que. Átomo, uma vez, disse que. Quando tudo-tudo-tudo-tudo-tudo-tudo, tudo, tudo ficasse muito confuso. Que então se transformasse o tudo --este tudo, O tudo-- em literatura. Ou, pelo menos, o que fosse possível do tudo.