sexta-feira, abril 13, 2012

Anticlímax


- Ando meio amargo.

- Muito cacau na sua vida, meu bem?

- Engraçadinha.  Estou perto dos 30 anos e.

- Não me venha com essa conversa dos 30 anos. Você fala dela desde que fez 25. Agora não está nem na metade dos 27. Você gosta de "trintaanizar" a conversa.

- Esses diálogos fazem com que me sinta em um daqueles romances espíritas sobre tragédias, autodescobertas e espíritos de luz. Aquela "bregaiada" toda, sabe? É difícil conversar e não cair em uma dessas ideias pré-prontas, que fingem carregar o que queremos dizer.

- E o que é que você quer dizer, Fábio?

- Lídia, eu quero expor para você uma angústia enorme que eu estou carregando aqui dentro. Grande, que eu nem sei onde começa e onde acaba. Grande, que eu não consigo achar palavras para descrevê-la.

- É porque você perdeu o seu emprego, não é? Todas vez que fica desempregado começa a ficar depressivo. Até achar algo novo, sempre a mesma coisa. Por mais que não tenha sido culpa sua a demissão, começa a se achar um merda, que não serve pra porra nenhuma, que está no ramo errado.

- Espere aí! Um: Agora você começou a assustadoramente parecer um daqueles romances espíritas. Devolva minha namorada! Onde você a colocou, seu alienígena invasor de corpos?

- Besta!

- Dois: Eu também estava angustiado trabalhando. Só não tinha tanto tempo para parar e pensar nisto. Eu quero ganhar dinheiro e sobreviver, mas quero fazer ajudando o mundo a se tornar um lugar melhor. Ao mesmo tempo, não quero abrir mão de certos confortos conquistados por nossa sociedade cheia de problemas.

- "Nossa sociedade cruel e sanguinária", não era assim que você dizia?

- E é assim que é. Para chegarmos nessa.

- "Supremacia branca".

- Você está querendo mostrar o quanto sou previsível?

- Não, Fábio. Acho bonito que você tenha um entendimento consolidado da realidade que estamos inseridos. Realmente vivemos em uma supremacia do homem branco, heterossexual de classe média alta para cima, que matou, pisou e seduziu muita gente para chegar onde está. Mas você precisa repetir isso sempre para mim, como se fosse o sermão da montanha? É cansativo, desgasta nossa relação e as palavras ficam parecendo dizeres ao vento. É uma coisa doutrinária que eu sei que você não quer passar. Do que você precisa agora? De alguém que ouça suas teorias mirabolantes pela enésima vez? Ou quer realmente tirar algo de sua angústia?

- Eu não queria nada, Lídia. Eu queria morrer.

- É isso mesmo que você quer?

- Não.

- O que você quer?

- Você. Quero você, vem cá.

- Espere aí. Vamos esquecer tudo isto e transar, para depois você recomeçar sua angústia? Pior ainda: o "reloaded" vai ser na versão aprimorada pelo seu famoso "vazio pós-sexo".

- Lídia, detesto quando você fica racional demais. Me sinto ainda mais fraco. Me faz um cafuné. Te juro que um cafuné seu, neste exato minuto, me salva a vida.

- Vem cá, seu merdinha. Às vezes eu acho que você ainda não chegou aos 15 anos. Já te falei que você fode que nem um garoto de 15 anos?

- Mal assim?

- Não, entusiasmado assim.

- Lembra daquele trecho do Ballard que eu te falei?

- Da pornografia?

- É. "A pornografia é a forma mais política de ficção, pois aborda como usamos e exploramos uns aos outros, de modo mais urgente e impiedoso". Ah, isso é meio anticlímax, não é?

- Haha, total. Mas já estou acostumada com você. 

quinta-feira, março 08, 2012

Aplacar o sofrimento das almas moribundas

Primeiro Sussistanako (a Mulher Aranha) pensou em uma pedra. Sentou nessa pedra. Fiandeira, começou a trançar os braços, dois, muitos, envoltos por uma fina e sedosa teia. Velha, dona de mais de um bilhão de anos, passou a imaginar cada coisa do mundo e o mundo se pôs a existir. Primeiro as terras, depois os mares, depois as gentes. Ela criava.

Para ajudá-la, fez nascer Iatiku (que ganhou o apelido de Mãe do Milho). Ouvi alguém falar que Iatiku não é tão importante assim. Ora! Quem ri hoje, foi porque lá atrás, Iatiku concebeu o Khosari, um bobo fazedor de sorriso nas gentes. Um palhaço, sabe? Dizem que as plantas e o seres humanos também foram ideia de Iatiku. Do que eu vi, foi Sussistanako quem trouxe pessoa-homem pra cá. Das plantas, não me lembro bem. Talvez tenha sido Iatiku mesmo. Não sou eu quem vai contestar.

As duas moraram de favor na minha casa. Faz tempo. Quando Iatiku desistiu de viver com seu marido, o Coiote. Ele estava cada dia mais transtornado e violento. Assim que foi deixado, começou a persegui-las cheio de ameaças. Iatiku carregava um bebê na barriga. Passaram, lá minha casa, três meses. Eu queria que ficassem mais. Até a criança nascer, pelo menos. Até ganhar força para comer comida de gente. Não deu tempo.

Onde Iatiku passava a noite, cresciam todos os tipos de plantas comestíveis. Principalmente o milho. De um grão dourado que parecia até ouro. Foi isso que chamou atenção para a minha casa e fez correr boataria até o marido abandonado. O homem atravessou, a nado, dois oceanos. Distância que estava de nós. Apareceu furioso na cidade.

Coloquei as duas mulheres dentro de um ônibus. Foram para longe. Fiquei para receber o sujeito.  Teve atrito. Teve conflito. Na briga, perdi um braço. Ele a vida. Desde então, fui encarregado de livrar as almas das pessoas de seus corpos (alguns me dariam o apelido de Morte).

Só voltaria a ver aquelas duas dois anos mais tarde. Quando chegou tempo da Mulher Aranha ir embora. Antes de tudo, ela me fez outro braço e outro e mais outro. Compensar o que eu perdi. Naquele dia, Iatiku me chamou para morar junto dela e do filho. Eu queria. Não podia. Agora tinha que correr o mundo sem parar. Aplacar o sofrimento das almas moribundas. Antes de sair, entreguei um alfabeto à criança. O primeiro deles. E fui.

domingo, janeiro 22, 2012

Jacaré


Atrás da casa do meu avô
tinha um rio
que embalava nosso sono
e nossos risos.