Quinta-feira, Março 08, 2012

XIV - Aplacar o sofrimento das almas moribundas

Primeiro Sussistanako (a Mulher Aranha) pensou em uma pedra. Sentou nessa pedra. Fiandeira, começou a trançar os braços, dois, muitos, envoltos por uma fina e sedosa teia. Velha, dona de mais de um bilhão de anos, passou a imaginar cada coisa do mundo e o mundo se pôs a existir. Primeiro as terras, depois os mares, depois as gentes. Ela criava.

Para ajudá-la, fez nascer Iatiku (que ganhou o apelido de Mãe do Milho). Ouvi alguém falar que Iatiku não é tão importante assim. Ora! Quem ri hoje, foi porque lá atrás, Iatiku concebeu o Khosari, um bobo fazedor de sorriso nas gentes. Um palhaço, sabe? Dizem que as plantas e o seres humanos também foram ideia de Iatiku. Do que eu vi, foi Sussistanako quem trouxe pessoa-homem pra cá. Das plantas, não me lembro bem. Talvez tenha sido Iatiku mesmo. Não sou eu quem vai contestar.

As duas moraram de favor na minha casa. Faz tempo. Quando Iatiku desistiu de viver com seu marido, o Coiote. Ele estava cada dia mais transtornado e violento. Assim que foi deixado, começou a persegui-las junto com o bebê que Iatiku carregava na barriga, cheio de ameaças. Passaram, lá minha casa, três meses. Eu queria que ficassem mais. Até a criança nascer pelo menos. Até ganhar força para comer comida de gente pelo menos. Não deu tempo.

Onde, no mundo, Iatiku passava a noite, cresciam todos os tipos de plantas comestíveis. Principalmente o milho. De um grão dourado que parecia até ouro. Foi isso que chamou atenção para a minha casa e fez correr boataria até o marido abandonado. O homem atravessou, a nado, dois oceanos. Distância que estava de nós. Apareceu furioso na cidade.

Coloquei as duas mulheres dentro de um ônibus. Foram para longe. Fiquei para receber o sujeito.  Teve atrito. Teve conflito. Na briga, perdi um braço. Ele a vida. Desde então, fui encarregado de livrar as almas das pessoas de seus corpos (alguns me dariam o apelido de Morte).

Só voltaria a ver aquelas duas dois anos mais tarde. Quando chegou tempo da Mulher Aranha ir embora. Antes de tudo, ela me fez outro braço e outro e mais outro. Compensar o que eu perdi. Naquele dia, Iatiku me chamou para morar junto dela e do filho. Eu queria. Não podia. Agora tinha que correr o mundo sem parar. Aplacar o sofrimento das almas moribundas. Antes de sair, entreguei um alfabeto à criança. O primeiro deles. E fui.

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

XIII - Clara Clara Clara

Átomo Silva percebeu duas portas. Bateu na primeira. Nada. Nada. Nada. Bateu na segunda. Atendeu uma mulher. Cinquenta anos. Cabelos grisalhos, roupa puída. Átomo perguntou por Clara. Quê? Ela não entendeu. Era meio surda. Por Clara! Desta vez ouviu. Disse que não sabia dela.

Átomo tirou um papel amassado do bolso. Mostrou. Era uma foto de Clara. Num sulfite meio rasgando. Impressa  em impressora velha. Das que só servem para imprimir currículos. A dona apertou os olhos. Faz tempo que não a vejo. Eu também. Faz tempo que não a vejo,  ele falou. Ela foi fechando a porta. Átomo agradeceu. Despediu-se.

Silêncios inéditos
Cada um de seus silêncios --Clara-- foi inédito para mim. Um deles me deu coceiras. O outro foi quase uma chibatada. O terceiro me veio como um carinho. Do quarto me senti cúmplice. O quinto me magoou. O sexto me fez rir.  Depois, quando veio um oceano de silêncios, nadei. Nadei. Nadei. Nadei. Nadei. Nadei. Nadei.

O corpo cansa, Clara. As energias se exaurem. A primeira lufada --do seu silêncio invadindo meus pulmões-- me fez tossir sem parar. Na segunda, já estava mais acostumado. De repente, me vi envolto. Já não sabia me distinguir no meio do seu universo de silêncio.

Ainda os teus silêncios
Os pensamentos de Átomo fluíam. E estacavam. O que é mais silêncio? Mensagens vazias ou nenhuma mensagem? Átomo se pegou desejando que Clara lhe enviasse pelo menos um e-mail. Sem assunto e sem conteúdo. Vazio de tudo, mas algo. Um silêncio menos silêncio do que a falta de resposta. Ou a falta de resposta era mais do que silêncio e uma carta vazia seria então o silêncio de fato?

Para ele, seria ao menos um sinal de que as páginas (e mais páginas) de confissões e perguntas que a enviava eram lidas. De que não falar com ele havia sido uma decisão deliberada. De que ele deveria se retirar. Se resignar. Tentar se desnovelar daquele emaranhado confuso de sentimentos e caminhar em qualquer outra direção. Se é que se lembrava como era caminhar.

Se é que se lembrava como era caminhar. Se é que se lembrava como era caminhar. Se é que se lembrava como era caminhar. Esta última frase permaneceu. Ficou nos pensamentos de Átomo por mais tempo do que o desejado.

Uma lista de neuroses
De quem?
De quem o quê, ô?
É a lista de neuroses?
Do Átomo Silva. De quem mais?

Item primeiro (e único): Deelesermaisvelhodeestaremlongedenãoconhecêladefatodeserimaginadocomoummalucodeelasermaisnovadeelanãoterinteresseemhomensrapazesnogêneromasculinodeelanãoterinteressenoamordeeleserumestorvodedeelanãoterinteressenenhumnememamizadedeelenãonemsernadanãonemexistirnomundoohmeusenhoreassimvaieassimvaitantacoisamaisaiqueitemenormeporfavorpareparepare.

Encerramento
Eu me lembro que. Átomo, uma vez, disse que. Quando tudo-tudo-tudo-tudo-tudo-tudo, tudo, tudo ficasse muito confuso. Que então se transformasse o tudo --este tudo, O tudo-- em literatura. Ou, pelo menos, o que fosse possível do tudo.

Domingo, Janeiro 22, 2012

XII - Jacaré


Atrás da casa do meu avô
tinha um rio
que embalava nosso sono
e nossos risos.