sábado, abril 23, 2011

Ser latino é bárbaro

a Silvio Tendler

Eu não sinto como eles sentem
               não pretendo ser cool
            ignoro a ideia de looser
                          prefiro a espiral ao pragmatismo
                          minhas sensações são fortes e em torrentes

Não sou ocidental
              como me querem
                       fazer acreditar

Sou latino e sou brasileiro

Não idolatro intelectuais
                     mas tenho uma ternura sem fim pelos nossos criadores

        Boal; Freire; Solanas; Aleia; Sarlo; Rocha; etc..

mas não são só sobrenomes, Ms. e Mrs.!

        Augusto; Paulo; Fernando; Santiago; Beatriz; Glauber; etc...

Os EUA e a Europa estão
               lá, no mapa
azucrinando e querendo ordenar o mundo

e embora eu os carregue,
        arraigados comigo,

é no meu sistema
                   digestivo que levo esse cartesianismo
    e o expurgo dia a dia
                      no toalete
                      e
                      num ou outro momento de descuido

se
quisermos nos perceber
cabe-nos buscar
               nossa latinidade

o paradigma é invertido:

         macaco é aquele que
imita ininterruptamente
         o norte-americano e o europeu

Não é fácil,
               o
               sul-americanismo
não está nas prateleiras

mas basta se
deixar invadir pelo bárbaro
                       reprimido
que habita
                 cada um de nós

e assim ser, amém.

quinta-feira, abril 14, 2011

Clara noite de outono

Clara noite
     de outono
oiço o dia acabar

        vai nascendo, aos poucos, o sono
    do ócio, da criação

          amanhã é dia novo
(sabe-se lá o que virá pela frente)

terça-feira, abril 12, 2011

Coletivo

As domésticas, borbulhantes
dos ferros de passar a vapor,
invadem os transportes públicos,
levantando uma nuvem de água sanitária.

Os adolescentes raivosos e perfumados, entretidos
em seus videogames, tentam não encostar
nos corpos suados do trabalho, nos jeans
baratos das empregadas.

A narina delicada e branca dos jovens, sentados,
confunde a química que queima a pele delas
com o cheiro de sêmen.
As chamam
de putas em seus pensamentos.

Enquanto as mulheres, em pé,
exaustas,
só pensam em chegar em casa,
torcendo para
não encontrar uma tragédia

e então
limpar,
passar,
cozinhar
e descansar.