sexta-feira, janeiro 21, 2011
Da série narrativas rápidas: Causas perdidas
Nasceu com uma doença rara e incurável. Sorria quando via máquinas fotográficas. Formou-se advogado e só pegou causas perdidas. Prometeu amor eterno para mais de três pessoas. Combinava meias de pares diferentes. Disse que “a poltrona é o melhor lugar da casa” e se sentou. Assobiava o hino nacional enquanto lavava a louça. Não morreu aos 30 anos, data em que os médicos previram. Também não morreu aos 35, segunda data estipulada. Desistiu de ir ao médico e também de morrer. Pescou o maior peixe e ganhou o campeonato. Contava pra to mundo que casou as quatro filhas, um dos netos e que teve até um bisneto. Aprendeu a fazer pão em uma oficina da terceira idade. Estava em viagem pela Itália quando resolveu que era hora e se foi.
quinta-feira, janeiro 20, 2011
Da série narrativas rápidas: O espadachim
Era um espadachim de renome. Latia ao ser contrariado. Tentou bisbilhotar a vida alheia. Foi preso por desacato a autoridade. Montou um bar na beira da estrada. Fazia o melhor rocâmbole do interior de São Paulo. Resolveu pegar carona no porão de um cruzeiro. Morreu asfixiado com fumaça de automóvel.
terça-feira, dezembro 28, 2010
Saberes/Afetos
Maria ensinava o filhinho a descascar batatas. Cena típica: sentava em uma cadeira de madeira, sem braços, com um avental florido sobre o colo e uma bacia cheia de tubérculos recém-lavados no chão, entre as pernas. À sua esquerda, uma pilha de cascas e, do lado direito, o menino, Amadeu, à beira do fogão, que recebia o vegetal nu e colocava para boiar na panela de pressão. A mãe salientava muito o perigo trazido pela lamina da faca, que poderia machucar seus dedinhos, para que apenas tentasse fazer sob o olhar de adultos. “Cuidado para não perder muita batata, corte bem fininho, mas não tão fino a ponto de quebrar a tira, olhe, bem rente, bem a par com a carninha amarela”, descrevia com carinho. E fazia os gestos e produzia espirais e espirais intermináveis daquele filete marrom. O menino prestava a maior atenção do mundo, como se sua mãe estivesse partilhando um dos grandes segredos da humanidade. E, longe de ser coisa boba de criança, na verdade, ela estava mesmo.
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