segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Festa

Passei azeite nos braços dela e corri minha mão por eles, fazendo escorrer pro chão, pro meu corpo. Aí nos abraçamos e beijamos. (E a lua dentro dela era cheia) Jogamos um plástico pro mato e nos deitamos lá. Brincávamos de fungar um o outro, de sorrir, de se encostar e se esfregar com força. Era intenso, bruto e carinhoso. Um preencher e esvaziar quase convulsivo. Um festejar sagradejante, uma ovação do agora.

O sexo veio por último. Uma dança que se atrapalhava e se sincronizava, como harmonia e melodia numa música, cheia de instrumentos de sopro, cordas e percussão. Intuitivamente afinados.

Nossos gozos
coincidiram
com uma chuva torrencial
que veio pra amansar
o quente da noite
e lavar,
de alto a baixo,
nosso ser.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Da série narrativas rápidas: Causas perdidas

Nasceu com uma doença rara e incurável. Sorria quando via máquinas fotográficas. Formou-se advogado e só pegou causas perdidas. Prometeu amor eterno para mais de três pessoas. Combinava meias de pares diferentes. Disse que “a poltrona é o melhor lugar da casa” e se sentou. Assobiava o hino nacional enquanto lavava a louça. Não morreu aos 30 anos, data em que os médicos previram. Também não morreu aos 35, segunda data estipulada. Desistiu de ir ao médico e também de morrer. Pescou o maior peixe e ganhou o campeonato. Contava pra to mundo que casou as quatro filhas, um dos netos e que teve até um bisneto. Aprendeu a fazer pão em uma oficina da terceira idade. Estava em viagem pela Itália quando resolveu que era hora e se foi.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Da série narrativas rápidas: O espadachim

Era um espadachim de renome. Latia ao ser contrariado. Tentou bisbilhotar a vida alheia. Foi preso por desacato a autoridade. Montou um bar na beira da estrada. Fazia o melhor rocâmbole do interior de São Paulo. Resolveu pegar carona no porão de um cruzeiro. Morreu asfixiado com fumaça de automóvel.