terça-feira, setembro 18, 2012

Como poeira na gordura


para Leda Cartum

A distância cola feito poeira na gordura da pele.
Passa o tempo, e o sentimento,
obnubilado,
pergunta se
a pessoa querida
existiu mesmo
ou
foi apenas sonho.
A distância cala feito poeira nas estantes.
E a garganta, ardida, não consegue
reclamar
saudades.
A distância sela nosso lombo e nos cavalga
nos descontrolo que é existir, disparada,
no longepertopertolonge,
nas entremargens, nos  entrepostos,
no aqui nosso de cada segundo,
no viscoso dia a dia (turbilhão desenfreado).

Aos poucos, surge um código binário de lembreis cada vez mais escassos: esqueci, esqueci, lembrei, esqueci, lembrei, esqueci, lembrei, esqueci, lembrei, esqueci, esqueci, esqueci, esqueci. Primeiro, quanto a momentos no dia, depois, dias na semana. Mais tarde, nos damos conta de que já estávamos a um ano sem lembrar. E anos, temos tão poucos.

A resposta pra um poema destes todos sabem: uma palavra, um gesto, um abraço, de repente, transpõem tudo - as geografias, as metamorfoses, os humores - e a gente, mesmo que por apenas um átimo, se realcança.

(Inevitável:)
depois
volta
a distância,
poeira na gordura.

Mas e daí?

É bonito como essa coisa,  
a amizade,
dispersa o acúmulo de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo e
                             de novo...

domingo, julho 15, 2012

Medo da rua

A rua, toda vestida em violência
assusta o menino da classe da opulência
Quem calça as calçadas, de sangue, à bruta
é o gigolô midiático (com sua batuta)

A neurose cria o tom do drama.
A blindagem é o produto.
O revolver dá o desfecho trágico.
(Na notícia de TV).

Quem tem medo do lobo mal?
O maior lobo é o cerebral?
O lodo todo sai do canal? (E das antenas?)

Se despir do medo de sair por aí, com o violão, pra fazer samba. Caminhar com os olhos fechados, sem medo de atropelo, assalto ou um poste no meio cara. Aceitar a mão de um desconhecido e se deixar guiar sabe-se lá pra onde (pra algum lugar, única certeza). Abraçar a rua como quem abraça, todo dia, uma possibilidade de surpresa, de encontro, de troca, de amor, de aventura

e de perigo
(por que não?).

domingo, maio 20, 2012

Elo

Deus? Uma
superfície de gelo ancorada no riso
onde o belo devora e gera o belo.


Ps.: Poema gerado a partir de um trecho da novela "Com Meus Olhos de Cão", da escritora Hilda Hilst (primeiro e segundo versos), e um verso do poema "Vigília", de Mário Faustino (terceiro verso). Hilda citava Faustino, junto a Jorge de Lima, como um dos grandes poetas brasileiros relegados ao desconhecimento.